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  • Nana Soares

Um marco para mim, um desastre para a espécie


Não lembro quantos anos eu tinha quando vi o filme"Tubarão" pela primeira, segunda, terceira ou quarta vez. Também não lembro onde passou, embora minha suspeita principal seja de Sessão da Tarde. Sei que eu via o filme toda vez que passava, absolutamente fascinada pelo tubarão - um fascínio que dura até hoje. Aos 9 anos de idade, eu tinha pastas de Sandy e Junior e de tubarões (sim), com materiais sobre os animais (sim). Queria ser bióloga marinha e até hoje me pergunto se não deveria ter seguido essa linha. Vi filmes, li livros, fiz cursos e sou a orgulhosa mãe de três pelúcias e duas esculturas em madeira. E sonho em mergulhar com tubarões.


De volta ao filme, meu eu criança ficava triste com as mortes dos personagens e com muito medo daquela máquina de matar. Acho que muita gente sentia o mesmo, porque não foi à toa que o filme se tornou um clássico. Foi um divisor de águas na carreira do diretor Steven Spielberg, no gênero terror (sim), na minha vida e, principalmente, na relação humana com os tubarões. Jaws marcou o início do meu amor por esse incompreendido predador, mas na maioria dos outros espectadores o efeito foi oposto, e a caça de tubarões foi impulsionada pela nova aura de medo que o cercava.


O filme, de 1975, teve uma bilheteria pra lá de bem sucedida, impulsionou a carreira do diretor e virou um clássico celebrado por fãs depois de mais de quatro décadas de lançamento. Sério, até hoje os fãs fazem festas de celebração na ilha onde o filme foi gravado. O que eles celebram é uma boa pergunta.


O impacto do filme foi tão, mas tão grande, que ele fez com que a população de tubarões fosse reduzida. A nossa espécie, a verdadeira predadora desse mundo, começou uma matança sem fim puramente por prazer, numa espécie de vingança ou de "prevenção" de futuros ataques. Porque, no nosso imaginário, tubarão passou a significar uma máquina mortífera programada para matar humanos.


Sim, tubarões são predadores. Mas não de humanos. Pelo amor de Deus, a gente nem vive no mar, como é que poderia fazer parte da dieta dos tubarões? A absoluta maioria dos incidentes acontece ou porque os animais foram provocados/confundidos ou porque a ação humana limitou suas áreas de alimentação (caso clássico de Recife). Eu tenho bem mais medo de orcas ou de cobras do que de tubarão.


E sim, tubarões são animais inteligentes, mas não os gênios do crime e da estratégia que você vê no filme. São animais selvagens, são instinto. Na vida real, tubarões não brincam com barris flutuantes para te confundir e te atacar no melhor momento. Não travam uma batalha pessoal contra você. É impressionante que o filme tenha sido tão poderoso a ponto de um boneco tão mal feito (sério, olhem) ter produzido tamanho impacto.


Se você me perguntar, até que tudo bem o filme ser assim, porque sempre foi pra ser uma obra de ficção. Mas acho que isso deveria ter sido deixado mais claro e Steven Spielberg deveria pedir desculpas e direcionar esforços para reverter os efeitos colaterais de sua obra, uma vez que os impactos para todo um ecossistema foram bastante concretos. Nunca vi um divulgador científico ou especialista falar desse filme sem um certo ressentimento.


E é por isso que, para mim, Tubarão é um filme complexo. Nutro um grande carinho porque marcou o início de uma fascinação importante (tubarões são muito fofinhos e eu posso provar), mas o longa-metragem foi muito ruim para as espécies (particularmente o tubarão branco).


Mas tudo sempre pode piorar.


Pouca gente sabe, mas o filme é baseado em um livro best-seller. Lá por 2015 ou 2016 eu peguei esse livro emprestado para ler, meio que parar honrar minha história com esses animais. Meu conselho é que você jamais faça isso e não repita o mesmo erro.


É preciso reconhecer que o livro é bem mais complexo que a adaptação para o cinema - e isso fica BEM claro no prefácio escrito pelo autor Peter Benchley já depois do sucesso estrondoso do longa. O best-seller explora conflitos, relações e inseguranças vividos em terra firme. O tubarão é quase um detalhe. Já o filme é um terror em que o vilão é o tubarão. Ponto.


Tendo feita essa ressalva, o livro exala a vibe história-contada-por-um-homem-branco. Ninguém precisa ler, hoje, um livro que literalmente glorifica uma cena de estupro. Eu digo, para que vocês não tenham que ler: em uma das cenas, uma personagem casada (a mulher do personagem principal do filme, o único que sobrevive) sai para um jantar com o oceanógrafo, por quem ela é fortemente atraída. Eles fazem uma espécie de dirty talk nesse jantar, e o que eles fantasiam é.... que ele a estupra. Sim.


Pra vocês verem que não há tubarão páreo para o terror causado pelo próprio homem.

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