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  • Nana Soares

As paranoias trazidas por um teste positivo de Covid

Quando uma tragédia acontece, sobram análises sobre tudo que poderia ter sido feito para evitá-la, mas raramente sabemos quando nossas ações evitaram uma. E é possível que isso tenha acontecido comigo quando, no último dezembro, recebi um teste positivo para o Sars-CoV-2 apenas 12 horas antes de viajar para encontrar minha família.

Não tem outro jeito de descrever: foi um susto. Eu não apresentava qualquer sintoma e praticamente não saia de casa há vinte dias. Fiz o teste por um excesso de zelo para não carregar qualquer culpa de levar o vírus para a família e no fim ele veio positivo. Fui pega de surpresa e devo dizer que as coisas ainda não fazem muito sentido para mim. Escrever esse texto é uma tentativa de organizar o turbilhão de acontecimentos recentes.


Começando do começo, você precisa saber que eu sou uma tremenda privilegiada. Trabalho de casa desde antes da pandemia e tenho condição de pagar os salgados fretes de mercados, farmácias e demais serviços. Também temos carro e moro num bairro que me dá acesso a tudo num raio de poucos quarteirões. Minha parceira é médica e, embora não trabalhe diretamente com Covid, a alta exposição inerente à profissão fez com que nosso isolamento tenha sido extremamente rígido desde março, saindo poucas vezes para além do estritamente essencial. Ela tem absoluto pavor da ideia de transmitir um vírus ainda sem tratamento para outras pessoas. A essa altura já estamos adaptadas.


Sabendo que ia viajar antes do Natal, me isolei desde o dia 28/11. Nesse período, saí de casa três vezes, apenas uma delas sozinha. Essas saídas, juntas, não totalizaram 30 minutos e não fiquei um único segundo sem a máscara N95. Também desci umas quatro vezes na portaria para pegar encomendas, sempre com a N95. E o maldito resultado veio positivo.


Foi a confusão número 1: como, em nome da deusa, eu peguei esse vírus? A resposta nos parecia óbvia: peguei através da minha namorada. Só que o teste dela, realizado quatro dias depois do meu e dois do diagnóstico veio....negativo.


"Como, em nome da deusa, eu peguei esse vírus e você não?" Foi a confusão número 2 e a que nos deixou o próprio meme da Nazaré confusa por semanas. Nada fazia sentido: ela é a médica e quem sai de casa é ela e não eu. Além disso, foram vários dias de convívio normal - dividindo talheres e saliva, dormindo na mesma cama, etc. - sem se infectar. Até agora não temos uma explicação. Consideramos inclusive a hipótese de um falso positivo, embora saibamos que o teste PCR é bastante preciso.

Nos isolamos em casa por 14 dias, período em que monitorávamos meus sinais (batimentos, oxigenação, pressão, temperatura e ausculta do pulmão) a cada 3h. O privilégio de morar com uma médica. Continuei sem desenvolver qualquer sintoma aparente e os testes realizados ao fim dos 14 dias vieram negativos para ambas. Repetimos os exames na segunda semana de janeiro e nada mudou, inclusive na sorologia. Eu (ainda?) não tenho anticorpos, o que faz com que não descartemos a hipótese do falso positivo - e eu me odeio por sequer considerar uma ideia conspiracionista assim. De qualquer maneira, "curada" ou não, estou vivendo segundo a hipótese de que não me infectei, porque acho melhor prevenir. Devo repetir a sorologia daqui uns dois meses e estou fazendo exames para ver se tenho qualquer tipo de sequela ou dano invisível.


Mas os 14 dias de isolamento.. esses foram de uma angústia e solidão ímpares, cenário perfeito para paranoias e para refletir sobre muitas coisas. Os sentimentos mais recorrentes daqueles dias foram a frustração egoísta por ter me infectado e o medo paralisante de, mesmo jovem e saudável, ter sido premiada nessa loteria macabra que é a Covid-19.


O primeiro sentimento era horrível de admitir, mas inevitável de sentir. Eu me julguei otária por ter ficado em casa, não ter viajado, ido para a praia, corrido na rua, visto mais amigos. Também passei a ter uma raiva/frustração/desilusão por ter "perdido a moral" de falar para as pessoas se cuidarem. Era essa a sensação. Parecia que falar para minha mãe não fazer as unhas ou sugerir exercícios em casa sairiam hipócritas vindos de mim. "Tô vendo mesmo como você se cuida, deu super certo", era o que o diabinho dizia no meu ombro. Me apeguei ao sentimento de que as pessoas iam achar que eu não me cuidei tanto como eu dizia ou aparentava. Isso me doía e ainda dói, tanto é que abri esse texto justificando como eu não saí de casa MESMO, como 𝑒𝓊 𝓈𝑒𝑔𝓊𝒾 𝒯𝒪𝒟𝒪𝒮 𝑜𝓈 𝓅𝓇𝑜𝓉𝑜𝒸𝑜𝓁𝑜𝓈. Todos os dias preciso me esforçar para lembrar que fazer o quê, o vírus tá aí, aconteceu. Sai, voz do diabinho.


(Mas vai que foi um falso positivo...o mundo faria sentido novamente...)


Quanto ao medo, acho que se você se preocupa com a pandemia, deve saber do que eu estou falando. Mas acho que não consigo traduzir em palavras a sensação de impotência e angústia enquanto esperava os 14 dias se arrastarem. Diagnosticada logo no recesso, eu não tinha trabalho para fazer, não tinha cabeça para ler nem ânimo para cozinhar. Dormia e comia em cômodos diferentes da minha namorada e ficava de N95 o dia inteiro, com a casa toda aberta (e agora muito mais barulhenta). Em resumo: quando eu mais precisava me ocupar era quando eu menos tinha coisas para fazer. Quando eu mais queria colo era quando eu mais precisava ficar afastada. Haja reality show besta para aguentar.

Contava os minutos para às 18h, quando atualizava minha contagem regressiva. Tinha pavor de dormir e acordar doente, e ao acordar o primeiro pensamento era sempre o "Ufa, acordei bem, um dia a menos. Ou será que hoje é o dia que vou desenvolver sintomas?". Essa dúvida, para mim, assintomática, foi o mais desesperador. Não desejo a ninguém.


Que fique claro, tenho plena consciência do privilégio dessa experiência. Não estou equiparando com a de alguém que de fato ficou doente em qualquer grau por causa do coronavírus ou que perdeu uma pessoa amada. Tenho certeza que foram dias piores do que os meus. Esse foi apenas o relato da minha experiência, a descrição de dias repletos de ansiedade, paranoias em looping e de uma incerteza que ainda não se foi. Incerteza essa que não deixa, exatamente, o diagnóstico ficar no passado.


O que eu tirei disso tudo é que, embora tenha raiva de ser tão certinha durante a pandemia, também foi esse meu jeito caxias que trouxe o único alívio daqueles dias todos. Pecar pelo excesso me deu a certeza de que não transmiti o vírus para ninguém, principalmente para a família repleta de pessoas do que entendemos como 'grupo de risco'.


Se cuide, mas faça o teste também, sempre que possível. É assim que se para uma pandemia - e que potencialmente se evita uma tragédia.


Foto 1: isoladas e mascaradas em casa. Apesar de tudo, uma foto que amo. Vejo muita cumplicidade

Foto 2: O quadro da contagem regressiva do isolamento.

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